segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mini conto O FIM DO MUNDO

Em março de 2010 participei do concurso literário "Contos do Rio", que iria premiar o melhor mini conto  cujo cenário fosse a cidade do Rio de Janeiro, tomando como mote para o enredo ficcional a fotografia desta postagem http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/03/27/regulamento-do-concurso-cultural-contos-do-rio-278125.asp. 

Pelo jeito o concurso não foi para a frente, pois nunca anunciou o vencedor, assim compartilho aqui meu mini conto.


O FIM DO MUNDO


      Sempre pensei que o fim do mundo seria diferente, e agora estou aqui neste espaço infinitamente branco. Na realidade não tenho certeza se estou vivo ou morto. Mas o que me deixa irritado é saber que aqueles miseráveis dos maias estavam certos.

      Meu “fim do mundo” ocorreu um dia antes do previsto, quando perdi minha esposa e dois filhos em um acidente de carro, no dia 20 de dezembro de 2012. Lá estava eu, em prantos e soluços, olhando para a lápide de meus amados. Todos já haviam deixado o enterro há mais de duas horas, mas eu ainda permanecia parado. Olhando.


      Quando minhas pernas começaram a reclamar, por permanecerem na mesma posição por muito tempo, resolvi sair dali. Mas o que faria? Como poderia viver sem minha esposa e meus filhinhos? O mundo desabou sob meus pés.


      Parei ao lado do meu carro e comecei a perceber que meus valores estavam começando a mudar. Vi meu reflexo na negra e polida lataria do meu carro executivo de quinhentos mil reais e percebi uma pessoa oca. Olhei para meu relógio de ouro maciço e percebi que logo o pôr do sol chegaria. Meu caríssimo terno estava um tanto amarrotado, depois de muitos abraços consoladores. Uma raiva começou a tomar conta do meu ser. Tanto dinheiro e ao mesmo tempo tão pobre.


      Uma angústia também começou a me dominar. Daria toda minha fortuna para ter de volta minha família.


      Assim, dirigindo pelas ruas da cidade maravilhosa, fui até minha casa. Ao adentrar minha mansão, os seguranças me cumprimentaram de forma diferente, com solenidade. Rapidamente peguei três garrafas do meu uísque predileto e saí. Olhando para aquelas garrafas, com aquele líquido dourado envelhecido por vinte e cinco anos, um pensamento inédito me veio à mente. O valor de uma única garrafa, com apenas setecentos e cinquenta mililitros, é maior do que o salário de muitos pais de família.


      Naquele momento eu me desliguei por completo da preocupação mundial que estava ocorrendo há mais de dois meses de forma intensa. O fim do mundo seria no dia seguinte, segundo os maias. Tudo aquilo me fez recordar o alvoroço mundial às vésperas do ano dois mil. Para mim tudo aquilo era uma palhaçada. Mas eu estava errado.


      Desta forma, eu e minhas três garrafas, nos dirigimos para o Corcovado. Quando cheguei ao Cristo Redentor, já estava escuro. Estacionei o carro e não o tranquei. Nada mais importava. Em minha sã consciência jamais estaria naquele local àquela hora. O que mais tenho a perder? Depois de uma longa caminhada, ou deveria dizer escalada, cheguei lá em cima. O suor havia molhado minha camisa de seda italiana. Ali, na base daquela estátua, sentei e abri a primeira garrafa. O primeiro gole desceu ardendo. Olhei para cima e vi que a iluminação do monumento contribuía para uma sensação de inferioridade. Encarando o Cristo, gritei:


      — Por quê?


      Lá em cima, contemplando a Baía da Guanabara, comecei a esvaziar as garrafas.


      Durante a primeira garrafa meus pensamentos eram uma mistura de reflexões e recordações. O primeiro beijo que minha querida me deu. Nosso casamento e lua-de-mel. A alegria que sentimos com o nascimento de nossos filhos. Tudo era visualizado nos recônditos de minha alma, como uma reprise de programas de televisão.


      Abri a segunda garrafa. A partir daquele momento comecei a deixar de existir. Não me lembro como ou quando desci. A última coisa de que me lembro foi ver ao longe a ponte Rio-Niterói, com o ritmo constante das luzes dos carros transitando sobre ela.


      Ao abrir os olhos, percebi que estava deitado em alguma calçada. Já era dia. A princípio a desorientação da ressaca me fez querer vomitar. Lentamente fui percebendo uma histeria coletiva entre as pessoas que corriam desesperadas. Ainda tonto, olhei para cima. Era como ver pelo fundo de uma garrafa. Os prédios que via, se afunilavam rumo ao firmamento. Após alguns instantes, com várias pessoas pulando sobre mim e outras me chutando, vi no céu azul apenas uma linda, grande e solitária nuvem.


      Sentado, e após analisar o que estava acontecendo, um calafrio percorreu a espinha, quando o medo, como um balde de água gelada, dominou-me completamente. A linda nuvem, que na realidade eu não sabia mesmo o que era, crescia de forma rápida e não se limitava ao céu. Era uma esfera que crescia vertiginosamente, consumindo tudo e todos.


      Tentei levantar, mas não consegui.  Logo, tudo ficou branco.


      E aqui estou eu, esperando.


      Esperando...
 


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